Ocupações de escola e o novo ativismo: um desafio para as marcas

Ocupações de escola e o novo ativismo: um desafio para as marcas

Esqueça por um momento o lugar comum que te leva a concluir que a ocupação das escolas em diferentes estados do Brasil é um movimento político. Esqueça a teoria da conspiração que vê manipulação por trás de todo e qualquer fenômeno social. E pense comigo no seguinte: a nova geração de jovens está disposta a tomar atitudes políticas radicais. Estamos preparados para isso?

A consultoria Box1824, na pesquisa O Sonho Brasileiro da Política, apontou diversas tendências sobre o engajamento político dos jovens de 18 a 24 anos:

  • 45% dos jovens se envolveriam com a política se o processo fosse mais transparente;
  • Os jovens se mobilizam por causas concretas, como direito à cidade, questões de gênero, internet livre, cultura da periferia e meio ambiente;
  • Há uma disposição crescente (16% dos jovens) de se mobilizar por estratégias de ação direta para chamar a atenção à estas causas concretas;
  • Metade desses preferem o caminho de ONGs e movimentos sociais. A outra metade está buscando criar novas formas de mobilização política, em um processo chamado de “hackers da política”;

Essas novas formas de engajamento, esse hackeamento da política, é que move iniciativas como a ocupação das escolas. Movimentos sem identificação partidária, articulados em torno de causas muito concretas – fechamento da escola, falta de merenda, Oscips educacionais etc – e que conseguem causar impacto na opinião pública e no sistema institucional.

Até o momento, o desafio está restrito ao poder público, refém do atraso e do engessamento burocrático. Mas esta tendência pode atingir marcas e organizações privadas. É questão de tempo para este hacker da política chegar ao ambiente corporativo e colocar em questão temas como relações de trabalho, sustentabilidade e impacto socioambientais de produtos e serviços. Aliás, temas como questão de gênero já tem exposto marcas como o bar Quitandinha, a Skol e a linha de esmaltes Risqué.

A sua empresa está preparada? Provavelmente não.

O novo protagonismo político e social que surge entre os jovens exige que marcas e instituições construam canais autênticos de diálogo. Mais do que reclamar que sua estratégia de marketing deu errado, é fundamental rever a abordagem. Já faz tempo que uma marca não fala sozinha sobre si mesma, e tem outros falando sobre ela por aí.

Por que não trazer essa fala do outro para a mesa, e construir o posicionamento de marca em conjunto com seus públicos? Por que não ceder o papel principal da história para o outro, seja ele o cliente, o funcionário, ou a comunidade do entorno? A resposta é simples: porque isso significaria ceder poder, e em um país de longa tradição autoritária como nosso ninguém quer ceder um milímetro. Todo mundo quer ser o centro das atenções, na política ou no mundo corporativo.

Mas essa é uma decisão estúpida. Marcas que se constroem no diálogo com seus públicos, que os colocam no centro de sua própria história, cedem um naco de poder, mas ganham uma longa história de espaço compartilhado. Ganha embaixadores, brandlovers. Ganha perspectiva de longo prazo no mercado.

Neste momento, há duas escolhas a quem se defronta com o novo ativismo. Uma está sendo feita por vários políticos neste momento, que é justamente aderir à desqualificação dos movimentos tachando-os de político-partidários, e ignorando suas reivindicações. A outra é construir canais autênticos de diálogo. A má reputação da política já pode servir de prova sobre qual abordagem é a mais eficiente.